A profissão docente entrou em minha vida há aproximadamente treze anos. Lecionei em princípio na minha casa em aulas particulares a alunos que precisavam de reforço. Mais precisamente em 1994, com uma turma de jovens e adultos foi dado o primeiro passo em sala de aula de uma escola pública no município de Extremoz/RN. A partir daí, passei por várias escolas, públicas e particulares até chegar a Escola Estadual Alceu Amoroso Lima no conjunto Nova Natal – zona norte da capital potiguar.
A experiência docente vivenciada nessa trajetória profissional implica em um aprendizado muito valioso e neste trabalho é o principal objetivo. Nessa vertente enfatizamos alguns relatos de experiência em sala de aula.
Na condição de docente de história em uma escola pública de ensino fundamental, relatamos a estratégia de uma aula cujo tema representava a leitura por parte dos alunos de dois quadros expostos na lousa. A aula transcorreu de forma satisfatória e se tornou enfoque central, sobretudo no seu objetivo o qual que se referia ao significado dos quadros, ou seja, o que representava para os alunos da 8ª série as duas imagens ali expostas.
A escola na qual estamos nos referindo atende a uma demanda de aproximadamente 900 alunos, distribuídos nos três turnos: matutino, vespertino e noturno, sendo que no primeiro funcionam as quatro primeiras séries iniciais, no segundo as turmas de 5ª a 8ª séries e à noite funciona a EJA – Educação de Jovens e Adultos. O nome da escola é uma homenagem ao escritor de renome nacional no campo das letras Alceu Amoroso Lima, o que para os funcionários é um orgulho, muito embora alguns deles não saibam que foi o ilustre escritor.
O espaço físico é composto da seguinte forma: uma sala para direção, uma para a secretaria e uma para os professores. As salas de aula se resumem em 11, existindo ainda mais três onde funciona uma para sala de vídeo, uma para guarda-livros didáticos e uma terceira para reuniões.
Quanto aos recursos humanos, especialmente o corpo docente, ressalta-se que gira em torno de 22 professores. A maioria deles é efetiva, ou seja, tem vínculo empregatício estável, enquanto que, 10 são professores substitutos, uma vez que foi realizado um concurso e grande parte dos mesmos ainda não foram convocados. E quanto à formação do quadro docente há uma boa variação. No geral, só existe uma professora que só tem o nível médio, inclusive concluído no ano passado. A maioria possui o magistério, curso normal de nível médio. Formados em pedagogia do nível superior são 10, geografia um e história um e um em letras. Quanto à pós-graduação somente duas professoras possuem, ambas em psicopedagogia. Vale lembrar que os professores com formação em história, geografia e em letras possuem licenciatura plena. Vale pontuar ainda algumas observações feitas ao longo desses dois anos que estamos na escola. Quase todos os professores praticam metodologias ultraconservadoras, totalmente “bancárias” como já dizia Paulo Freire. A exceção, modéstia à parte, fica por nossa conta cuja prática docente está mais voltada para o diálogo, objetivando centralizar a relação ensino-aprendizagem como o foco do trabalho pedagógico, muito embora encontrar resistências por parte do alunado – este já incorporou o ensino tradicional (em especial a utilização do questionário – aplicação deste com suas respectivas respostas com o objetivo de decora-las e responde-las na prova) como sucesso para aprendizagem.
Na condição de docente de história nessa escola, relatamos a estratégia de uma aula cujo tema representava a leitura por parte dos alunos de dois quadros expostos na lousa. Para tal fazer pedagógico, foi necessário mostrar a importância da leitura de imagens no meio educacional. O uso pedagógico de imagens se revela, notadamente, em um importante meio educacional nas nossas escolas. Dentre as opções nessa área, representadas como suporte pedagógico, optamos pelo o uso das artes na sala de aula, uma vez que a sua relevância se encaixa em qualquer disciplina e especial no ensino da história, disciplina que lecionamos. Segundo Martins (2003) “a arte exerce, como em outros tempos sociais, papel fundamental. Em busca de se integrar ao universo tanto exterior quanto interior, o ser humano busca representar a realidade e expressá-la através da arte”.
Tomando como princípio o ensino de história, no ensino fundamental, quando das explicitações das artes renascentistas, não podemos perder de vista esta oportunidade de aproveitarmos o momento para uma discussão mais apurada no tocante à importância das artes para a educação bem côo para o ser humano de modo geral.
Em uma das aulas planejadas, segundo ZABALA (1988) “os objetivos da aula devem estar sempre muito bem claros e especificados”. Sobre o período renascentista, levamos para a sala de aula (8ª série ou 9º ano atual) dois quadros – obra de uma autora desconhecida – cujos temas eram: um deles retratava uma paisagem de seca, muitos galhos de árvores em pedaços e um segundo quadro, o contrário, um rio abundante de águas e muito verde com plantas e frutos a vontade. Esse momento, no que concerne ao fazer docente, ficou marcado positivamente em nossa memória. Então, pedimos aos alunos que fizessem uma leitura dos quadros ali expostos. Antes havíamos mostrado um pouco da história da arte e da sua importância. No entanto, os alunos se manifestaram quanto ao que pedíamos. Alguns queriam logo fazer os comentários. Mas, o objetivo da aula conforme foi planejada, não era simplesmente comentar oralmente. Em primeiro lugar, a produção de um texto era o ponto de partida para que os alunos pensassem e colocassem no papel as impressões que fariam da leitura dos quadros. O segundo ponto era que após a produção escrita fizessem a representação oral, explicando o seu entendimento sobre o que acabavam de vislumbrar.
Terminada as apresentações, a turma era composta aproximadamente de trinta alunos, nem todos apresentaram conforme o esperado, mas consideramos dentro da normalidade, uma vez que esse tipo de aula não acontece com freqüência, mesmo sabendo que deveria ser.
Fazendo uma análise sobre o resultado da aula ora realizada, apesar de alguns não terem demonstrado bastante empenho, destacamos trabalhos que ficaram acima da média. Dentre os textos produzidos, um se destacou pela sua perspicácia precoce – em se tratando de uma turma de último ano do ensino fundamental da rede oficial. A aluna em apreço analisou os quadros da seguinte forma: o primeiro quadro, que retratava uma situação de seca, de fome, ela leu fazendo uma referência à obra de Graciliano Ramos ‘vidas secas’ cuja narrativa discorre sobre uma família de retirantes nordestinos que partem em busca de dias melhores. O segundo quadro, a aluna referenciou ao período de abundância no Egito Antigo as margens do rio Nilo. Indagamos sobre como ela entendeu, tão rapidamente as mensagens que os quadros passavam - as artes plásticas - ou seja, pode se fazer várias leituras diferentes de um mesmo quadro – ela respondeu que quando fitou os mesmos as imagens só refletiam esses dois momentos já citados. Em síntese, o objetivo da aula foi atingido e esperamos que o uso das artes na sala de aula seja uma alternativa nem só nas aulas de artes e também nas de história.
Ainda em se tratando de prática pedagógica, no momento atual em que em nossas escolas o espectro do ensino se circunscreve em torno da relação professor-aluno, não se pode esquecer o que acontece de fato no interior das salas de aula no tocante ao objetivo principal da educação escolarizada que é a aprendizagem. Buscando um embasamento teórico para explicar o que acontece com o alunado de hoje especificamente o da rede oficial de ensino onde exerço a função docente não será tarefa fácil apontar caminhos tão plausíveis. Fazendo uma ponte entre uma das práticas pedagógicas com as teorias cognitivas da aprendizagem, segundo (LAKONE, 2003; 27), nos aproximamos mais da teoria vygotskyana.
Citamos por exemplo mais uma das atividades que aplicamos em nosso dia-dia escolar. Conforme já assinalamos que a disciplina que trabalhamos é a história vale pontuar o que os alunos dizem dos outros professores. A pergunta mais recorrente é: por que professor, o senhor não coloca as respostas no quadro? Professor A e B coloca. E o questionário para estudar para a prova, não vai sair não? Essas indagações são uma constante na escola em pauta. Respondemos sempre que o nosso intuito é a aprendizagem e para que ela ocorra é necessário se fazer aulas que estimulem o raciocínio dos alunos, fazer com eles pensem – o que por sinal não é tarefa fácil. Usando as palavras do educador Aquino (2002, p.53) “o que nas outras profissões é desafio, na educação é dificuldade, empecilho, obstáculo”. Essa percepção nos faz imaginar sobre a profissão docente nos dias atuais. Já imaginamos se o paciente é o empecilho do médico; se leitor é o obstáculo do escritor: é como diz o autor citado “se o aluno é a dificuldade do professor, o que será fazer pedagógico” idem.
Todas essa observações são bastante pertinentes para a nossa prática docente. Fazendo um paralelo entre a prática discutida e o embasamento teórico, chegamos à conclusão de que a educação escolar se desdobra mesmo é no contexto da sala de aula, e cabe a nós, docentes, criarmos estratégias que superem todos os obstáculos e até as perspectivas mais otimistas. Assim concluímos a trajetória de um docente que procura fazer com que haja aprendizagem no contexto da sala de aula e também se preocupa com a didática que se deve utilizar para um bom aprendizado.
Espera-se ainda que a educação, especialmente na escola pública desse país, com toda a defasagem que se conhece possa paulatinamente atingir resultados bem mais promissores e fiquemos entre os melhores dos países em desenvolvimento.